<i>Stress</i>
A ordem voltou aos mercados. Os testes de stress ao sistema financeiro chegaram ao seu termo. Recolhidos ficam, por agora, os apetrechos, guardados os manuais e arrumados os instrumentos periciais indispensáveis a tão exigente tarefa. Cumprindo o papel que lhes foi atribuído, os Constâncios de cá e os Trichets de lá – em bom rigor nem de cá nem de lá, geograficamente falando, mas tão só do lado de lá olhando pela parte do capital a quem servem – estão agora em sossego. Concluída que está a devastação imposta pela extorsão dos principais centros do capital financeiro sobre os estados, preparado que está o terreno para nova operação das agências de rating, os mercados estão prontos para outra.
Também por cá, no rescaldo da coisa, preenchido que foi o espaço concedido a analistas e garantida alguma utilidade à imprensa da especialidade, reconquistado o brio com a certificação das instituições do burgo, o terreno está pronto para que a rapina prossiga. Dir-se-ia, aliás, olhando para os agora divulgados lucros da banca de cá (geograficamente falando, já que de outro ângulo observando, de lá se teria de dizer) que bem dispensáveis teriam sido os testes para concluir que a coisa corre de feição e na maior das calmas. Três milhões de lucros dia para os três principais bancos privados, um volume recorde extorquido em comissões e o esclarecedor valor de 6% pagos em impostos sobre o volume de lucros são elementos bastantes para se poder concluir que tal sentimento, de stress falando, a morar, não é ali mas sim nos que deles dependem: na pequena economia estrangulada pela usura dos juros, nas centenas de milhares famílias garrotadas pelo aumento dos spreads e pelo saque das comissões.
Neste jogo especulativo feito de forjadas expectativas e projectadas estimativas destinadas a criar condições para a acção impune dos mercados de capitais se constroem lucros fabulosos sobre um mar de papel quase sempre à custa da economia onde medram o ganho de uns quantos e a pauperização da imensa maioria.